Archive for the ‘Charges Jornalistas & Cia’ Category

E assim nasceram os cadernos de vestibulares…

Tuesday, August 24th, 2010

Charge para o Jornalistas & Cia

PS: Que nenhum advogado me processe por essa…

O Jornal da Tarde que fez escola e marcou época nos seus primeiros anos de vida, no início da década de 1970, era uma usina de inovações, alimentada por um grupo de excepcionais profissionais. Era uma redação que não tinha medo de ousar, de apresentar novidades, de incorporar ao dia-a-dia dos paulistanos coisas incomuns, sobretudo na prestação de serviços – item até então praticamente desconhecido de jornais e leitores.

Num dia qualquer, o então repórter Celso Kinjô chegou à redação e foi chamado pelo chefe de Reportagem Ulysses Alves de Souza, o Uru, que lhe pediu: “Hoje vai ser divulgada a relação de aprovados no vestibular da Faculdade de Direito São Francisco. Vá até lá e traga essa lista, que vamos publicar no jornal”. Kinjô tentou contestar que aquilo não era uma coisa de grande interesse jornalístico, mas foi vencido pela determinação de Uru em ter a tal lista e lá foi ele para o Largo São Francisco atrás dela. Tinha a vantagem de ser bem perto, já que naquela época o Grupo Estado ficava na rua Major Quedinho, no Centro de São Paulo, a poucas quadras da Faculdade.

Lá chegando, Kinjô procurou a Secretaria da Faculdade para pedir a lista (vale lembrar que naquele tempo não havia computador ou quaisquer dessas facilidades de reprodução que temos hoje). A atendente fez cara de estranhamento, mas disse que somente o secretário tinha autoridade para ceder a lista. Kinjô pediu para falar com ele. Daí a pouco chegou um senhor maginho, quase tão velho quanto as famosas arcadas da faculdade, a quem repetiu a solicitação.

– Não! – declarou o secretário com veemência.

– Posso saber a razão? – perguntou Kinjô.

– Ninguém, fora os próprios candidatos, tiem interesse nessa lista. E eles, como acontece todos os anos, vão passar pela Faculdade para ver a lista afixada no mural a fim de saber se foram ou não aprovados – sentenciou o secretário

Kinjô ainda argumentou com seu interlocutor de que estava ali cumprindo uma determinação do chefe de Reportagem, que não poderia voltar ao jornal de mãos abanando, que aquela era uma iniciativa nova do JT, de prestação de serviços aos seus leitores (muitos deles oriundos da própria Faculdade ou com filhos ali concorrendo a uma vaga), mas o velhinho se manteve irredutivel. A única coisa que conseguiu arrancar dele foi a seguinte frase:

– Se você quer a lista e o seu jornal exige isso de você, vá lá no pátio e copie! Eu não vou dar a você e ao seu jornal lista nenhuma! Não vou me prestar a ser co-responsável por uma coisa inútil!

Sem alternativa, lá foi Kinjô para o pátio, copiar a lista. Copiou um, dois, três, quatro nomes, mas quando chegou ao décimo desistiu. Eram cerca de 500. Nem que ficasse a tarde toda lá conseguiria, além de ter que datilografar tudo novamente quando chegasse ao jornal.

Voltou de mãos vazas, para inconformismo de Uru, que considerou aquela atitude de uma prepotência sem igual. Mas decidiu que, a partir dali, aquele seria de fato um serviço que o jornal prestaria aos seus leitores e à comunidade.

Tempos depois, o JT começou a publicar a relação de aprovados nos principais vestibulares do País, no que logo foi seguido por outros veículos, ganhando, com esse serviço, não só nas vendas avulsas de exemplares mas também publicidade de muitas escolas.

A coisa tá russa

Wednesday, August 11th, 2010

Charge para o Jornalistas & Cia

Durante uma viagem que fez para Moscou ao lado de sua esposa, Heródoto Barbeiro, autossuficiente, recusou o guia que ia acompanhá-los pela cidade, pois “ele só vai mostrar os pontos turísticos, e a gente quer conhecer a alma do povo, a Moscou que o turista não vê”.

Diante do temor de Walquiria, sua esposa, de que não conseguissem voltar ao hotel, ele copiou diligentemente o que estava escrito na fachada, naquelas ininteligíveis letras do alfabeto cirílico, e com absoluta segurança guardou o papel no bolso.

O casal passeou livremente por Moscou, curtiu bastante e, na hora de voltar, entrou num táxi. Heródoto disse ao motorista que queria ir para o hotel e, triunfante, entregou o papelucho com as letras cuidadosamente desenhadas.

O motorista não entendeu, olhou o papel, sacudiu a cabeça e desandou a falar em russo, fluentemente – o que, por sinal, em Moscou, não é de espantar.

Montada a confusão, Heródoto irritando-se e apontando com insistência o papel, o motorista optou por deixar o carro com os dois lá dentro e voltou pouco depois, acompanhado de um taxista que falava  inglês. Este finalmente conseguiu explicar ao casal que não havia nome de hotel nenhum no papel, onde Heródoto escrevera em russo a seguinte frase: “O hotel está lotado, não há vagas”.
 

O Rei Ubu e o Príncipe

Wednesday, August 4th, 2010

Charge para o Jornalistas & Cia

Em 1993, os brasileiros foram mobilizados para o plebiscito sobre Presidencialismo ou Parlamentarismo. Ao mesmo tempo, o País deveria responder se queria ou não a volta da Monarquia.

O príncipe Dom  Bertrand de Orleans e Bragança, Príncipe Imperial do Brasil, segundo na sucessão ao trono caso a monarquia fosse restaurada, visitava o estúdio da CBN.

Há poucos quilômetros da rádio, havia performance de atores e o diretor de teatro Cacá Rosset, na pele do personagem Pai Ubu, declarava-se rei e concedia a Jacinto Figueira Júnior, o Homem do Sapato Branco, do programa Aqui Agora, o nobre título de Marquês do SBT. Ao final da manifestação,Wagner Sugameli, agitador cultural e integrante do grupo de Cacá queria saber se era possível aos atores um contato com o príncipe. Não viram problemas, porque a proposta era discutir questões culturais com o representante da Casa Real Brasileira.

De repente, instalou-se o caos na redação e uma multidão quebrou a monotonia do ambiente. Cacá Rosset chegou com seu pessoal trazendo nas costas um imenso urubu negro. Uma bandinha tocava na porta da rádio e Sugameli, incorporando um “conde”, anunciava que o Rei Ubu exigia encontrar-se com o futuro rei do Brasil. Dom Bertrand, assustado, pedia, com toda elegância, que eu evitasse aquele constrangimento. Mauro Wu, assessor de imprensa do príncipe, desesperado, ia de um lado ao outro da redação, empunhando um guarda-chuva e gritando.

Wu, descendente de chineses, perdeu a calma oriental e, tomado de fúria, decidiu enfrentar a “corte” do Rei Ubu. Abriu o guarda-chuva para proteger o príncipe, naquele momento assediado pela “comitiva real ubusiana”, e tentou caminhar em direção à saída. O pessoal da segurança agiu rápido e o príncipe conseguiu sair discretamente pelas escadas, enquanto a confusão aumentava.

Enquanto Rei Ubu lamentava o frustrado “encontro diplomático entre dois chefes de Estado”, o furioso Mauro Wu permanecia atracado com o “conde”. O assessor tentava impedir que o “exército” do Rei Ubu acompanhasse os passos do príncipe. O “conde” Sugameli, vendo que não dava mais para ir ao encontro do visitante, começou a protestar contra a arbitrária interferência de Wu e aos berros dizia que o assessor estava abusando dele, um homem noivo, que não poderia ser apalpado. Foi a gota d’agua para que Mauro Wu o espremesse contra uma porta de vidro.

Com Dom  Bertrandd longe do “campo de batalha”, sobraram os “súditos” do Rei Ubu, correndo, agora, rumo à 1ª Delegacia de Polícia, onde registraram um boletim de ocorrência denunciando a “incompreensível” reação de um dos principais assessores do príncipe.

Bola quadrada, pé furado

Monday, July 26th, 2010

Charge para o Jornalistas & Cia

 

Na redação do Estadão, no final da década de 1970, o pessoal fazia algumas brincadeiras para ajudar a aliviar o stress do corre-corre dos fechamentos. Um destas brincadeira consistia em pegar uma lista telefônica, embrulha-la com folhas de jornal e transformá-la em’bolas’ de futebol. Quando alguém chegava da rua era então apanhado de surpresa com o grito: “Lá vai bola!!!!”. E tinha que se virar para devolver de primeira ou esquivar-se para evitar a pancada.

Numa certa noite, a brincadeira virou desgraça.

Renato Lombardi chegou da rua com o seu material de polícia e foi discuti-lo com Luiz Carlos Ramos, o “Barriga”. Terminada a conversa, ele caminhou para sua mesa a fim de escrever a matéria. Àquela altura, dois jornaslitas, Chico Ornellas e Julinho Mesquita, já estavam posicionados ao lado do armário, conversando dissimuladamente. Quando “Lomba”, vítima costumeira da dupla, chegou perto, viu o embrulho voar na sua direção. Não teve dúvidas. Recorreu ao sua habilidade como centroavante do time da redação e tratou de devolver o torpedo com uma vigorosa bicuda. Resultado do desastre: seu sapato de camurça atravessou a redação e derrubou tudo que aparecia em sua frente…

O grande furo

Tuesday, July 20th, 2010

Charge para o Jornalistas & Cia

Em 1979, Marco Rossi trabalhava no jornal O Dia, de São Paulo, um diário criado por Adhemar de Barros nos idos dos anos 50, e que já tivera seus dias de glória. Na época, o jornal mantinha bravamente a sua periodicidade, mas tinha uma redação bem enxuta. Na verdade, eram dois: Rossi – o foca – e o editor Luís Feite Mota, que também trabalhava como repórter-fotográfico na Secretaria dos Transportes do Estado de São Paulo.

O diretor, Augusto de Oliveira, ex-chefe de impressão do jornal de Adhemar de Barros, tinha lá suas ligações com o então recém-eleito (pelo Colégio Eleitoral) governador Paulo Maluf. E foi por conta dessa relação que Rossi acabou escalado para cobrir um Governo Itinerante que tinha como destino a cidade de Presidente Prudente, no Oeste paulista.

Para quem não sabe, a ideia do Governo Itinerante até que era interessante; consistia na transferência do Governo do Estado, com todos os seus secretários, para uma grande cidade do interior e ali, por dois ou três dias, todos os prefeitos da região eram recebidos e despachavam suas demandas diretamente com as autoridades da comitiva. O transporte utilizado à época era o trem e como a imprensa convidada para a cobertura seguia com despesas pagas pelo Governo, o projeto acabou apelidado, pela própria imprensa, de “Trem da Alegria”.

Mas o detalhe desta ida para Presidente Prudente era que o diretor, Augusto de Oliveira, amigo do governador (ora bolas!), seguiria com Rossi. Responsabilidade dobrada.

Em vez de usar bloco e caneta, como a maioria dos seus colegas de jornalismo impresso, Rossi preferiu lançar mão de um gravador! Um espetáculo da tecnologia, mas naquela época nada prático, pois era grande e pesado, apesar de ser chamado de “portátil”. O microfone era ligado ao aparelho por um fio bem curtinho, o que significa dizer que para ter os detalhes dos discursos do governador Maluf Rossi se via diante do dilema de ou prender a mala entre as pernas, segurar o gravador com uma mão e o microfone com a outra, enquanto se equilibrava no meio de uma multidão (sim, porque a cada parada juntava-se uma multidão de pessoas em torno dele), ou largava tudo para trás e se concentrava em manter-se em pé, segurando apenas o gravador e o microfone (aquele de fio curtinho). Em qualquer dos casos era um desafio daqueles para um pobre foca, tanto é que quase nada conseguiu gravar dos pronunciamentos do governador naquelas concorridas e espremidas paradas.

No caminho de volta para São Paulo, Rossi soube, nos bastidores do restaurante do trem, que o governador faria uma última parada, não programada, na cidade de Lins! Ali estava seu primeiro furo de reportagem: ficou sabendo antes de todos daquela parada, quando certamente haveria mais um concorrido discurso. Eele precisava traçar uma estratégia que o colocasse ao lado do governador, quase que pregado nele, e antes de todos os seus colegas que até ali viajavam distraída e confortavelmente no vagão dos jornalistas. Daí veio a ideia: quando o trem começasse a parar na estação, ele desceria na plataforma, com o trem ainda em movimento, e se colocaria diante da porta do último vagão, o do governador. Assim, quando a porta se abrisse, lá estaria Rossi, ao lado do Maluf, pronto para gravar todas as suas palavras além do “meus queridos amigos da cidade de Lins”. Preparei seu tijolinho – vulgo gravador – e quando o trem se aproximava da estação se posicionou ao lado da porta do vagão onde estavam dois seguranças da Fepasa (Ferrovias Paulistas S.A.).

Era um momento de grande tensão, o primeiro furo da vida de Rossi… e foi! Com o trem quase parando, virou para um dos seguranças e perguntou: “E aí? Dá pra descer?”. No que ele respondeu: “Dá sim, mas cuidado para não cair”. Com a assertividade de um repórter investigativo, foi direto e firme: “Pode deixar…” E colocou o pé na plataforma…. aliás, o pé errado e acabou levando um baita tombo – ele e o seu gravador (aquele do fio curtinho) – rolando por metros afora, como um charutinho!

Quando se levantou, obviamente com o sapato todo esfolado e a calça rasgada no joelho, o trem já havia parado, o governador havia descido e aquela tal multidão, que eu nunca havia conseguido romper, já estava à volta do Maluf.

Sr. Franqueza

Tuesday, July 13th, 2010

Charge para o Jornalistas & Cia

A charge desta semana é sobre Arlindo Piva, que faleceu aos 76 anos no ano passado.

Defini-lo como excêntrico, estranho, irritadiço, intempestivo é revelar meias verdades. Era tudo isso e muito mais. Não teve estudo formal, mas sabia mais sobre as coisas da vida do que muito graduado. Repórter de Turismo da Folha de S.Paulo, viajou o mundo inteiro e de cada canto trouxe casos que encheriam páginas e páginas. Jazz era sua paixão, tocava violão como poucos, mas só para consumo interno e para conquistar mulheres, que o adoravam. Seu incrível ouvido musical era capaz de perceber desafinação até mesmo em Miles Davis, seu ídolo supremo.

Mas talvez sua maior qualidade ou falta dela tenha sido a franqueza, tão espontânea, inesperada e contundente que sempre embaraçava as almas mais delicadas, e até as mais calejadas. Ao chegar para um jogo de dados ao apartamento de um amigo, jornalista e professor na USP, espantou-se com o tamanho do local e, diante da dona da casa, que acabara de conhecer, disse: “Jornalista honesto não pode ter um apartamento como este”.

Sua franqueza teve o momento mais alto, e desastroso, quando, funcionário de imprensa do Governo de São Paulo, acompanhou o governador a uma viagem a Porto Alegre. Depois do coquetel e do discurso final, na saída todos saúdam o governador paulista. Arlindo e o fotógrafo Gil Passarelli, acompanhando tudo, e este, para “fazer média”, diz: “Belo discurso, governador.”

Mas antes da reação do homem procurou a opinião do amigo, e perguntou: “Não é mesmo, Arlindo?” Na frente de todos, Arlindo não se omitiu, e disparou: “Foi bom sim, governador, mas o senhor erra muito no português”.

Perdeu o emprego no palácio, mas não a franqueza, que continuou como sua marca registrada, divertindo e embaraçando amigos e desconhecidos.

Chuta que é macumba!

Tuesday, July 6th, 2010

Charge para o Jornalistas & Cia

Era meados de 1984 e delegações de jornalistas do interior de São Paulo participavam em Presidente Prudente do tradicional encontro anual organizado pelo Sindicato dos Jornalistas, à época dirigido por Gabriel Romeiro, que era, como é até hoje, do Globo Rural. Daquela diretoria participavam Luís Nassif, Joelmir Beting, Juarez Soares, José Paulo Kupfer, Vicente Alessi Filho, Fátima Turci, Samuel Iavelberg, Mara Ziravello, Sérgio Sister e Paulo Ribeiro, entre outros. A oposição havia vencido as eleições para o Sindicato, sob a bandeira da CUT, numa dura disputa contra a chapa de situação liderada por Almyr Gajardoni (hoje na Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), que teve o apoio de nomes como Audálio Dantas, Lu Fernandes e muitos outros colegas.

Aquele era, salvo engano, o primeiro encontro do interior organizado por aquela diretoria e estavam todos com fôlego novo e muita disposição para fazer um trabalho que justificasse os votos recebidos da categoria. O encontro estava superconcorrido e foi prestigiado por alguns diretores e também pelo então presidente da Fenaj, Armando Rollemberg.

Depois de tensos debates, as noites serviam para relaxar. Numa delas, num dos bares da cidade, reuniu-se numa mesa um pequeno grupo, entre os quais estava Laila, uma jovem recém-formada que morava em São José dos Campos e ali estava muito mais para aprender e conhecer pessoas do que propriamente para participar dos debates. O grupo começou a inventar histórias e quanto mais inverossímeis a história, mais eles a aumentavam. Foi quando chegou à mesa Júlio de Grammont (já falecido) e pôs ainda mais tempero nas histórias, para deleite geral.

Laila, na sua ingenuidade, não entendia porque riam tanto, mas em nenhum momento deu pinta de que achasse tudo aquilo mentira. Fazia como os “escadas” para os humoristas, dando corda para que as histórias ficassem sempre mais engraçadas. De nossa parte, além das brincadeiras, queriam atraí-la para a sua base, evitando que pudesse ser eleitora da oposição.

A história que mais deixou Laila atônita foi iniciada por Julinho (um impressionante cara-de-pau e exímio contador de causos) e complementada aqui e ali pelos outros integrantes da mesa. Versava sobre as “verdadeiras” razões da vitória nas eleições sindicais.

Disse ele: “Laila, não fomos nós que ganhamos as eleições, mas eles que perderam. Nós sabíamos que seria muito difícil, pra não dizer impossível, ganhar. Sem chances, decidimos apelar para o sobrenatural e encomendamos uma macumba das bravas para ajudar o nosso lado e prejudicar o lado deles. Numa sexta-feira, 13, lá fomos todos nós para uma encruzilhada, com muita cachaça, charutos, fitinhas, bonequinhos representando a oposição espetados e um frango preto, para sacrificar à meia-noite”.

Laila: “Credo em cruz, isso não pode ser verdade! Quer dizer que vocês ganharam por causa da macumba?”.

Julinho, tentando manter a seriedade, no meio de um turbilhão de gargalhadas, passou a palavra ao Paulão Ribeiro, que emendou, sem nada ter sido combinado: “Não, Laila, na verdade fizemos o despacho para ganhar as eleições, mas as entidades nos disseram que nem com reza brava ganharíamos. Que era para nos conformarmos e nos prepararmos para os próximos anos”.

Laila: “Isso só pode ser brincadeira. Estão querendo tirar uma com a minha cara!!! Se nem a macumba resolvia, o que é que aconteceu afinal?”.

Aí entrou em cena o Vasco: “Sabe, menina, viramos o jogo por acaso. Foi obra do além. Só pode ter sido. Algum espião, que até hoje não sabemos quem é, foi bater para os caras da situação que nós havíamos feito esse despacho para derrotá-los e aí eles enlouqueceram”.

Laila: “Eu não acredito numa coisa dessas!!!”.

Vasco: “Espera um pouquinho, eu não acabei a história. Isso foi ainda naquela mesma madrugada e quando eles souberam da macumba mobilizaram o Almyr Gajardoni, o Audálio Dantas e outros colegas da chapa de situação e foram imediatamente para o local da encruzilhada. Não prestou. Foi um arraso. Era o Audálio chutando o frango, o Almyr despedaçando os charutos, a Lu quebrando enlouquecida as garrafas de cachaça… Quando fomos lá, no dia seguinte, para conferir (porque também tínhamos a nossa contraespionagem) dava até dó de ver penas, cacos e tabaco para todo lado. Parecia a guerra do Vietnã em plena capital paulista. Aí pensamos: se havia alguma esperança de ganhar a eleição, ela se acabava ali, para nossa desgraça”.

Laila: “Gente, não acredito. O Audálio chutando frango, a Lu …”.

Aí novamente entrou em cena o cinismo bem-humorado do Julinho, para arrematar: “A eleição estava perdida para nós, Laila, com macumba e tudo. Mas aí veio a ajuda divina. Revoltados com a agressão, as entidades decidiram agir em nosso favor e viraram a eleição”.

Laila: “Alto lá, companheiro!! Isso não pode ser coisa de jornalista!”.

Julinho: “Tanto pode que hoje estamos aqui, são e salvos, realizando esse encontro e conversando com você. E se aqui estamos, devemos aos chutes e tapas dados no nosso humilde despacho por Almyr, Audálio, Lu e companhia. Eles desafiaram o sobrenatural e pagaram caro por isso”.

Nunca foi desmentida essa história, que rendeu gargalhadas por um bom tempo, praticamente durante todo o mandato de Gabriel – que, aliás, nem tomou conhecimento do episódio. Mas Laila, sóbria no dia seguinte, também não deve ter se lembrado de nada. Ou, se lembrou, deve ter dado boas gargalhadas com tanto besteirol.

Cadê a pizza?

Monday, June 28th, 2010

Charge para o Jornalistas & Cia

No início dos anos 1990, época do boom do já hoje quase aposentado fax, a Agência Estado criou uma linha de produtos corporativos. Um deles era o NewsPaper, uma espécie de “edição da edição” dos jornais do dia e que existe até hoje. Para os clientes receberem a sinopse até às 8h da manhã, a equipe sempre trabalhou durante a madrugada. Exatamente em 1992, em uma noite fria como estas que têm feito, o time foi tomado por uma fome daquelas.

Naquele tempo, o prédio do Estadão era quase uma “ilha” no bairro do Limão, porque não existia comércio 24 horas no entorno. O jeito foi ligar para uma pizzaria que ficava na av. General Olímpio da Silveira, bem debaixo do Minhocão, do outro lado do rio Tietê, um dos poucos estabelecimentos abertos às 2h da manhã.

Feito o pedido e fornecido o endereço, foi enfatizado que o destino era o prédio do jornal O Estado de S.Paulo. Meia hora, 40 minutos e nada da pizza. Ligamos e o atendente informou que o pedido já estava a caminho. Mais uns 20 minutos e com todo mundo já ameaçando comer lauda, parede, porta e o que mais estivesse na frente, novo telefonema com um apelo desesperado: “Moço, pelo amor de Deus, cadê a pizza???”. Do outro lado, a resposta, enfática: “Já foi entregue !”. “Nós não recebemos. Onde o motoqueiro foi?”. “Na rua Barão de Limeira!”. “Nããããooo!! A pizza foi parar na Folha!!!”.

Resultado: naquela noite, todo mundo ficou com estômago “grudado nas costas”. E ninguém sabe, até hoje, quem comeu a redonda de marguerita e calabreza durante o trabalho noturno no jornal da família Frias.

Angústia

Monday, June 28th, 2010

Charge para o Jornalistas & Cia

Era uma 6ª.feira, 1º de fevereiro de 1974, 9h da manhã, 36 anos atrás. A primeira notícia chegou à redação do Estadão, então no prédio da rua Major Quedinho, no centro de São Paulo, hoje ocupado pelo Hotel Jaraguá: havia um princípio de incêndio no Edifício Joelma. Ali perto, na Praça da Bandeira, início da avenida 9 de Julho. Sílvio Sanvito é quem abria a reportagem local, a partir da contrapauta deixada na noite anterior pelo editor Clóvis Rossi. Ricardo Kotscho, o chefe de Reportagem, finalizava a pauta para um grupo de menos de 20 repórteres.

O primeiro repórter foi a pé – era só atravessar o viaduto Jacareí para chegar ao local. Chegou e avisou que a coisa era séria, muito séria. Em pouco tempo, aos repórteres de Cidades uniram-se outros, das editorias de Esportes, Economia, Política. Uma força-tarefa que reuniu toda a Redação para cobrir a maior tragédia vivida por São Paulo: no final do dia – e do incêndio – haviam morrido 188 das cerca de 750 pessoas que estavam no prédio, 300 ficaram feridas.

Quando a edição começava a ser finalizada, já início da noite, alguém deu pela falta de um repórter. Ele não voltara e não se comunicara. Contatado, o Corpo de Bombeiros não tinha notícia. Ninguém sabia do repórter sumido.

A aflição durou quase uma hora, até que um chamuscado Sérgio Mota Mello (então iniciante repórter de Cidades, que depois seria correspondente da Rede Globo em Nova York, enviado especial a vários conflitos e hoje diretor da TV1) entrasse na Redação do Estadão trazendo um belíssimo texto de quem viu o incêndio por dentro.

A Virgem Oferecida

Wednesday, June 2nd, 2010

Charge para o Jornalistas & Cia

No início dos anos 1970 Bebeto de Souza Queiroz chefiava o Departamento de Jornalismo da Faap, um grupo de feras, Rodolfo Konder e Duque Estrada, entre elas, enquanto o Centro Acadëmico era dirigido por Hamilton Octavio de Souza, o HOS.

Um dia, Hamilton precisou discutir uns assuntos e procurou Queiroz na redação do Estadão e marcaram um fondue na casa de Queiroz. Augusto Nunes ouviu a combinação e, brincando, disse que caipira de Taquaritinga, como ele, não conhecia “esse tal de fondue” e acabou convidado também.

Eis que então uma também aluna da Faap se autoconvidou e apareceu por lá em. Desinibida, afirmou que era uma das poucas virgens da classe, já era tempo de iniciar a vida sexual e estava indecisa se o “premiado” seria Hamilton ou Augusto, por isso fora ao jantar.

A menina era linda, mas apenas isso, e, como dizia Vinicius, “uma mulher não pode ser só linda, e daí? Tem que ter alguma coisa além da beleza…” – e ela não tinha, nem tinha também “semancol”.

Sem rodeios, explicou diante das filhas pequenas de Queiroz, de olhos arregalados, por que queria ser deflorada, estragou o jantar falando apenas naquilo e, na sobremesa, revelou que a escolha estava feita. O felizardo seria o Augusto Nunes que, a bem da verdade, não estava interessado, como não estava também o Hamilton.

A noite se prolongou, Hamilton foi embora, a conversa murchou e às duas da matina Augusto, bem sem jeito, disse que ia embora, e saiu desenxabido com o “prêmio” pelo braço, dizendo que ia pegar um táxi (ele tinha um “carro comunitário” comprado com quatro colegas, mas aquele não era o dia de ficar com a máquina, estava a pé).

O resultado é que na madrugada invernosa de Pinheiros, quase ao lado do rio, onde Queiroz morava, havia uma neblina de cortar com faca, nenhum táxi e, com pena, pegou seu carro e foi resgatar o casal improvisado, ainda a pé, longe. Deixou primeiro a menina na casa dos pais, no Pacaembu, para alívio do Augusto, que levou depois ao apartamento dele.

Foi há 40 anos o fondue e, num acordo tácito, nunca mais ninguém tocou no constrangedor assunto. Não se sabe quem “fez as honras” da menina que, a bem da verdade, apesar de linda, seguramente não teve muitos pretendentes.